Comuna de Paris – Genocídio em Gaza

Anteontem, 18 de Março, a manhã em que Paris foi despertada por gritos de “VIVA A COMUNA!” fez 154 anos. Os massacres por parte da burguesia contra o jovem proletariado em Junho de 1848 tinham tornado clara, pelo menos para a vanguarda endurecida que sobreviveu, a necessidade deste se organizar para tomar de assalto e esmagar o aparelho estatal burguês. Em 1871, o proletariado erguia-se de novo, e desta vez a necessidade da sua ditadura era reconhecida e cumprida com uma força explosiva pelas suas massas: com a Comuna, o proletariado fez a crítica armada às hesitações das suas primeiras tentativas de emancipação.

Também foi anteontem que Israel voltou ao seu bombardeamento de Gaza, matando 400 palestinos num só dia, com uma quantidade de baixas que sobe permanentemente. Desde o cessar-fogo de Janeiro, Israel escalou a ofensiva contra a Cisjordânia e mais especificamente contra o campo de refugiados de Jenin, ultrapassando até os massacres que nele cometeu durante a Segunda Intifada, e continuou a matar e a impor o bloqueio humanitário em Gaza. Também esta semana, o Iémen, reagindo à violação do cessar-fogo por Israel, voltou a bloquear o Mar Vermelho, sendo imediatamente bombardeado pelos EUA. O extermínio ativo sionista parece voltar à região, com o fim de um cessar-fogo que tinha sido assinado em condições de derrota para as diversas forças que compõem o chamado “Eixo da Resistência”.

O regime de Assad, sem força para manter do seu lado a rede de milícias e clãs em que, já desde 2011-2012, o seu aparato de Estado se tinha separado e estilhaçado, caiu, com o país desagregado e dividido entre facções islamistas apoiadas pelo ocidente, a ocupação israelita no Sul, o que resta de Rojava e forças pró-turcas no Norte. Durante a agressão israelita no Líbano, o Hezbollah mostrou também não ser a mesma força, quantitativa e qualitativamente, que era em 2006, vendo-se, ao assinar um cessar-fogo, incapaz de contestar o plano sionista de separar as frentes da guerra regional para lidar com elas uma a uma. O Irão, país que oprime e massacra brutalmente o proletariado, as mulheres , os migrantes e as várias minorias nacionais dentro das suas fronteiras, contínua passivo perante o genocídio, apenas reagindo a ataques diretos pontualmente.

A “Guerra ao Terror” e o expansionismo sionista significam que, no imediato, “Paz” implica a normalização de relações com Israel, e a aceitação dos vários milhões de mortes exigidas pelo projeto sionista: esta é a “Paz” que os estados árabes alinhados com Riade procuram, e que lhes permitirá lucrar e obter a força militar necessária para suprimir as revoltas nos seus países.

A “paciência estratégica” iraniana e a ação do “Eixo da Resistência”, presas também de várias formas ao paradigma da “Guerra ao Terror” (com, por exemplo, a cumplicidade do Irão e das milícias iraquianas pró-Eixo com a invasão e ocupação americana do Iraque[1]), mostrou não estar à altura das tarefas levantadas pela resistência palestiniana na Operação “Tempestade de Al-Aqsa”. Só o Ansarallah no Iémen, liderando um país com resquícios ainda fortes de formas de produção pré-capitalistas, condenado pelo sistema-mundo a um lugar de sub-desenvolvimento e também a ser sacrificado pelos planos dos países árabes – em suma, onde as questões e os limites da revolução anti-colonial, logo nacional-revolucionária, ainda estão na ordem do dia – pôde entender o objetivo desta insurreição, que era tornar impossível o projeto israelita de normalização regional e genocídio silencioso, e a escalada total que apoiá-la seriamente implicava.

É a união entre os “famélicos da terra” em escolherem tornar toda a região num campo de batalha[2] em vez de se deixarem conduzir “pacificamente” para o extermínio, e não a política interestatal, que foi colocada em cima da mesa. As repetidas incursões do regime sionista sobre Gaza provam que, para Israel, paz significa reagrupar as suas forças e puxar a resistência palestiniana para uma maior dependência na área diplomática, onde se situam a maioria das suas contradições e limites[3]. Já os projetos políticos democráticos ocidentais, por sua vez, assentam sobre os escombros de Gaza, Jenin ou Sana’a; por isso a paz entre colonialistas e colonizados é impossível. A luta contra Israel não pode ser levada às suas implicações máximas enquanto estiver dominada por regimes burgueses – quer seja o Irão, a equipa legal da África do Sul no TIJ, ou a farsa da “diplomacia europeia” – muito mais prontos para proteger a sua pele do que para vencer. Entretanto, no núcleo imperial ocidental, com a militarização em curso da UE e a utilização de deportações para reprimir o movimento anti-imperialista, a Guerra ao Terror cada vez mais se funde com a Guerra ao proletariado migrante.

A democracia em que vivemos carrega irreversivelmente o ADN e o repertório do fascismo, do Holocausto e de múltiplos genocídios coloniais: quer fale de armamento ou paz, de policiamento ou redistribuição, ela hoje aponta para uma mera gestão das crises crónicas do capitalismo global, em direção à construção de um apartheid global com zonas de sacrifício para as populações “excedentes” às necessidades do capital, que enfrenta cada vez mais dificuldades em assegurar a sua acumulação. A Palestina é o futuro do mundo. Há décadas que são “experimentadas” sobre os palestinianos novas tecnologias de repressão, vigilância e chacina, das armas infrassónicas e eletromagnéticas para controlo de multidões, aos mecanismos de reconhecimento facial, hoje em dia utilizados pela maioria das forças de segurança e agora até por grupos reacionários[4]. “Forjadas” nos massacres em Gaza e na vigilância nos campos de refugiados e nos checkpoints fronteiriços da Cisjordânia, estas tecnologias são vendidas como “testadas em batalha” aos Estados-nação de todo o mundo, servindo a Palestina como um laboratório da violência capitalista-imperialista.

É urgente, hoje, uma política liberta não só dos aparatos estatais, horizontes eleitorais e burguesias imperialistas, como também dos interesses imediatos e da “segurança” das classes médias e aristocracias laborais do Norte global. A luta contra o genocídio na Palestina, sendo a imagem do futuro do imperialismo um pouco por todo o mundo, levanta horizontes muito para além dele mesmo. Levanta, seja qual for a conjuntura para a qual caminhamos e as tarefas concretas que ela imponha, a bandeira da luta internacional para construir o Partido Comunista. O colonialismo de povoamento em geral e o presente genocídio em específico não só exterminam para além das classes, como nivelam a estrutura de classes: tanto o massacre como luta pela sobrevivência imediata na Palestina, assim, tornam a questão da terra a questão que mais imediatamente confronta o proletariado como de vida ou morte para milhões de pessoas na Palestina e no resto do mundo. Esta questão, da ligação à terra entrelaçada com a resistência à expropriação, expulsão e extermínio, ainda é relevante. Se bem que as respostas já não sejam as mesmas de 1871 ou 1917 (reforma agrária, libertação nacional, etc), os comunistas não podem ignorá-la, sob risco de permanecerem alheios às lutas reais desses milhões de explorados e oprimidos. O imperativo do fim do imperialismo, não só em Gaza mas em todo o mundo, implica que o programa de luta seja contra o capitalismo no geral: ou seja,  sem o comunismo ser uma força real capaz de intervir na luta contra o imperialismo e pela terra, o proletariado de nações confrontadas com o genocídio só pode sobreviver ao dissolver-se em forças burguesas, as quais se vêem obrigadas a lutar contra o imperialismo que também as massacra hoje, mas que não têm outra escolha senão olhar para ele como o modelo de amanhã. A época histórica das burguesias revolucionárias já passou, e não irá voltar.

Mais do que nunca, “paz sim – guerra não” é um slogan tão vazio de qualquer conteúdo político como são as celebrações da Comuna de Paris por partidos que se opõem à ditadura do proletariado, como o P”C”P. O programa convocado pela prática da resistência palestiniana – a insurgência contra exércitos coloniais, a destruição das prisões e libertação dos presos, o ataque às condições de reprodução das metrópoles imperialistas – é um cujas implicações têm de ser articuladas na nossa perspetiva da revolução mundial, lidando com o terreno acidentado de guerras nacionais anti-coloniais e as forças de classe que estas podem libertar, e da sua integração na guerra civil porvir do proletariado global contra a burguesia que acompanha necessariamente a revolução comunista.

Uma guerra de libertação nacional nunca será uma revolução comunista, mas a repressão de ambas pelo capitalismo-imperialismo está interligada. Enquanto a Comuna era ameaçada tanto pelo exército francês como pelo prussiano, os trabalhadores alemães atacaram a sua indústria de guerra com uma onda de greve para travar as armas que matariam os seus irmãos Communards em Paris, uma posição que Engels elogiou como um dos primeiros casos de derrotismo revolucionário e internacionalismo proletário. O apoio dado pelos comunistas a guerras nacionais anti-coloniais é sempre contingente, e aqui a linha a seguir terá de surgir pela iniciativa dos proletários em revolta nos regimes árabes colaboracionistas, e pelos futuros comunistas que serão forjados nesses combates. Não há qualquer dúvida ou contingência, no entanto, sobre o dever dos Comunistas e trabalhadores no núcleo imperial a lutar sempre pela derrota dos nossos países, porque não é possível um povo ser livre enquanto oprime outro; ou, mais especificamente, é impossível o proletariado ser livre enquanto se identificar com e materialmente integrar a Nação que o oprime a ele e aos seus irmãos de classe. Reconhecer isto, na teoria e na prática, é a única forma de ajudar a construir o Partido Comunista como força mundial e de levar até às últimas consequências a guerra contra a guerra: é a única forma de celebrar 1871.

A classe operária não esperava milagres da Comuna. Ela não tem que realizar utopias completamente arquitetadas com um simples decreto do povo. Ela sabe que para realizar a sua própria emancipação e com ela esta forma de vida mais elevada para a qual tende irresistivelmente a sociedade atual em nome do seu próprio desenvolvimento económico, ela terá de passar por longas lutas, por toda uma série de processos históricos, que transformarão completamente as circunstâncias e os homens. Ela não tem de realizar o ideal, mas somente de libertar os elementos da sociedade nova que produz nos seus flancos a velha sociedade burguesa que se destrói.” 


(Karl Marx, Guerra Civil em França)


[1] As Forças de Mobilização Popular, no geral, compunham, com o regime defunto de Assad, o elo mais fraco do Eixo, sendo das primeiras forças a recusar a escalada contra Israel

https://dasrukamao.substack.com/p/the-iraqi-resistance-at-further-glance

https://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/iraqi-militias-downscaling-their-anti-israel-actions 

https://apnews.com/article/iraq-us-islamic-state-isis-pmf-withdrawal-coalition-b9194ed8e8ad944b15aaf7e41337912c 

[2] Uma afirmação polémica a partir de Portugal, ainda para mais à luz da nossa presente impotência, mas que encontra reflexo tanto na análise/estratégia e retórica do Iémen como noutros posicionamentos vindos da região. Ver por exemplo: 

https://robashlar.substack.com/p/gaza-a-human-matchstick 

[3] Como a relação à Turquia, que mantém todo o tipo de relações com Israel e é claro uma peça fundamental da OTAN, e ao Qatar, que fez parte da coligação liderada pela Arábia Saudita contra o Iémen, e também como os esforços feitos na China para reconciliar a OLP e o Hamas.

[4]  Por exemplo, os hooligans do clube Betar USA, que, com outras organizações sionistas e de direita nos EUA, ajudaram no doxxing de várias figuras do movimento pela Palestina, como Calla Walsh

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